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Revista Onco& – Abr/Mai 2016

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Revista Onco& página 48.

Integração é a palavra-chave

O tratamento do paciente com câncer tem se tornado cada vez mais complexo com a introdução de novas tecnologias diagnósticas, abordagens terapêuticas e o avanço na compreensão da doença. Poucos pacientes hoje são tratados com apenas uma modalidade terapêutica. Frequentemente, o paciente passa por uma combinação de cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Essa realidade reforça a tendência de um tratamento com abordagem multidisciplinar e integrada, em que diferentes especialistas trabalham juntos para chegar a um consenso sobre a linha de cuidado e os protocolos adotados para cada indivíduo. A abordagem multidisciplinar é hoje o padrão ouro na oncologia.

Recentemente, tive a oportunidade única de participar ativa e imersivamente em um projeto modelo nessa linha, na Clínica Multidisciplinar de Câncer de Pâncreas no Hospital Universitário da Johns Hopkins, em Baltimore, nos EUA, onde estive por seis meses como médica visitante sob orientação do Dr. Lei Zheng e em contato com grandes especialistas como o Dr. Luiz Alberto Diaz e o Dr. Daniel Laheru. O hospital da universidade é um dos melhores do mundo, classificado por 10 anos entre os 3 melhores dos EUA e referência no tratamento de câncer.

Baltimore é uma cidade pequena, há cerca de 30 minutos de Washington DC, e grande parte da atividade local gira em torno da universidade e do hospital, que recebe pacientes vindos de todos os países, especialmente do Oriente Médio, em busca de uma segunda opinião médica. A oncologia possui um prédio próprio, com emergência oncológica, atendimento ambulatorial, setor de quimio e radioterapia, cirurgia e internação. Toda essa infraestrutura em um só local, desenhada para atender os pacientes de forma integrada e ágil.

Durante minha visita, atuei no ambulatório gastrointestinal, acompanhando pacientes com câncer de pâncreas, colorretal e neuroendócrino, além de participar das sessões multidisciplinares de câncer de pâncreas realizadas semanalmente. Nessas sessões, profissionais de diferentes especialidades, entre oncologistas, radiologistas, patologistas, cirurgiões e médicos da dor, se reúnem para analisar e debater caso a caso dos pacientes que procuram a clínica em busca de tratamento ou segunda opinião.

A rotina se inicia pela manhã com o trabalho fundamental da enfermeira especialista (nurse practitioner) que junto com os residentes recebe os pacientes, colhe a anamnese e faz uma triagem já selecionando aqueles que carecem mais de radio, quimio ou cirurgia. De acordo com essa seleção, os pacientes são encaminhados para consultas individuais com os especialistas. Após essa fase, colhidas as informações de cada paciente, todos os profissionais médicos se reúnem para analisar caso a caso e discutir o tratamento. Terminado o debate, todos os médicos conversam com cada paciente. Mesmo que o paciente seja cirúrgico, será atendido por um oncologista. Ao final, o paciente sai de lá com uma visão ampla do tratamento e os médicos com a conduta definida. O paciente pode optar em seguir o tratamento na clínica ou levar a conduta para seguir em outra clínica. Se o paciente não tem exame, já faz lá. Toda a conduta é definida em um só dia e com um olhar multidisciplinar.

Ter um centro focado na doença com médicos especialistas nisso, faz toda diferença. Além da agilidade, o paciente ganha na qualidade do atendimento integrado. Em média, 24% dos pacientes atendidos na clínica em busca de uma segunda opinião têm mudança na conduta recomendada para seu caso depois da análise da equipe multidisciplinar.

Esse modelo de atenção integrada, apesar de reconhecido com uma prática ideal em todo o mundo, ainda é exclusividade de poucos centros de excelência de hospitais universitários nos EUA. Mas a ideia está viva aqui no Brasil na Rede D’Or São Luiz e no grupo Oncologia D’Or. Temos na rede equipes de alta qualidade em cirurgia, radioterapia, imagem e oncologia e a possibilidade de replicar aqui esse sistema. Na tentativa de implementar o atendimento integrado e mais ágil possível, o grupo criou a chamada linha verde, uma linha de cuidado vai desde a suspeita da doença seguindo durante todo o tratamento com apoio e assistência completa ao paciente.

O projeto cria um fluxo continuo entre as unidades do Grupo Oncologia D’Or e os hospitais da Rede. Do mesmo modo que na clínica da Johns Hopkins, o paciente atendido pela linha verde recebe o acompanhamento de um hematologista e um oncologista clínico atentos a todo seu histórico e tratamento. O paciente conta ainda com um concierge que marca seus exames, consultas e procedimentos no menor tempo possível, agilizando o atendimento. O tempo entre o primeiro atendimento, o diagnóstico e o início efetivo do tratamento é fundamental para o paciente com câncer e a linha verde tem conseguido encurtar essa janela, que normalmente é de 3 meses no Brasil, para 30 dias. É mais uma forma de atendimento integrado que abraça o paciente no momento em que ele mais precisa.